Potyguara Bardo e a concepção holística da inexistência no álbum ‘Simulacre’



Original do Rio Grande do Norte, José Aquilino é o nome por trás de Potyguara Bardo, um dos nomes mais interessantes da cena pop e drag queen atual. No início do mês, a artista colocou no mundo o seu Simulacre, álbum de estreia que chega com a colaboração do Estúdio Dosol por meio do projeto Incubadora e produzido por Walter Nazário, Dante Augusto e Mateus Tinôco.

O título do trabalho é resultado da concepção das palavras “simulacro” e “lacre”, em que a ideia de simulação é uma ficção de tudo o que vemos ao redor, mas que essa ideia imaginada pode ser “lacrante”. Pensando nisso, a obra reúne em nove faixas o que há de mais contemplativo na música atual: a diversidade de sons, letras representativas e uma experiência sensorial e holística.



A faixa-título, que abre o disco, “Simulacre (Cuisine de Revê)” é o prelúdio da experiência que está por vir: uma viagem de Potyguara Bardo sob efeito de “shimagic”, que expande a criatividade para saborear a jornada da drag em busca da identidade: “Repetimos o nosso nome até soar como alguém, como uma pessoa verdadeira e que existe. No final das contas tombamos com a realidade que é a maquiagem que são todas essas escolhas. Elas cobrem a nossa essência, que nada tem a ver com o que é material. Eu posso me propor a acreditar que eu sou o que for, mas nada importa porque nada é real e a gente poderia estar numa simulação”, explica Bardo.

“Karamba” traz a participação da drag Kaya Conky em um pop versátil que mescla house com eletrobrega. Brincando com termos comumente usados na internet, a faixa faz uma deliciosa relação em conhecer alguém nas redes sociais e criar expectativas à frente de um primeiro encontro.



A diversidade de ritmos é uma das características marcantes de Simulacre. Em “Mamma Mia”, por exemplo, Potyguara mescla batidas funk com sample de “Tarantella Napoletana”, clássica canção italiana popularmente usada em propagandas de pizzas, além do famoso “gemidão do zap” e o rato Xaropinho (do Programa do Ratinho). Enquanto isso em “Lambada do Flop” ouvimos a introdução da youtuber Zuzu, que ficou conhecida pela webnovela Foi Sem Querer.

A narrativa da obra também nos transporta para a serenidade em “Oasis” e “Plene”, com partipação de Luísa Nascim, de Luísa e os Alquimistas. Ambas marcadas pela leveza do reggae entre arranjos sutis, contam duas histórias sobre amor: a primeira, sobre aquele amor puro, mas lúcido quanto as expectativas em não ser retribuída (“Mas eu sei que você não me quer / Me afobei quando meu beijo retribuiu / Não faz mal, benzinho não vou lhe incomodar / 1001 rejeições já precisei encarar). Já a segunda, uma reflexão sobre descobrir o sentido da vida e começar a enxergar as transições (boas ou ruins) como processos que precisam ser encarados com sabedoria – como já explicava a parábola da caverna de Platão.



O ponto máximo do álbum certamente fica por conta de “Você Não Existe”, faixa que encerra o trabalho com poucas resoluções, mas que deixa a dúvida para ser saboreada com prazer. “Você não existe e eu também não. Tudo que tem nessa vida é fruto da imaginação. A realidade surge na nossa ligação. Suas ideias emanam a luz de toda a criação”, canta Potyguara. Segundo a drag, a faixa surgiu de uma reflexão do “quanto o mundo é imaterial e como nós fazemos parte de um grande mar de energias” (assista o vídeo aqui). Como se não bastasse a composição intensa, a produção nos transporta a uma viagem psicodélica que passeia entre o reggae e chillwave até se desmembrar em um psytrance nebuloso.

O videoclipe de “Você Não Existe” mostra Potyguara Bardo cantando os versos por meio da língua de sinais. A produção é de Urban TV.



É notável a qualidade sonora e a beleza de culturas em Simulacre. A obra flerta com elementos folclóricos tanto na estética do disco quanto na imagem de Potyguara, que nos remete a lenda da Vitória Régia e toda idealização de querer ser estrela, mas se tornar uma planta aquática. O registro é uma clara representação da nossa inexistência com olhar holístico que começa dentro e se esvai para fora, buscando compreender o presente e futuro com bom humor e produção assertiva. Certamente um dos melhores registros de 2018.



Obrigado Alan Pontes por me mostrar essa preciosidade.
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