Bemti e a busca pela catarse em melodias sobre o amor no álbum ‘era dois’



Há tempos a música serve de cura, seja para quem ouve, quanto para quem as escreve. Exorcizar sentimentos ruins é o escape de todo compositor, pelo menos é o que comprovamos ao ouvir as dez canções de Era Dois, álbum de estreia do mineiro Bemti, que chegou às plataformas no começo do mês.

Produzido por Luis Calil, do Cambriana, a obra nos entrega muito mais do que uma produção, mas sim, a oportunidade de se identificar com a narrativa e encontrar alento por meio das poesias bem descritas pelo autor: “Quando eu era dois e me vi metade, em queda livre, como fazer pra me reerguer?”, canta Bemti com o auxílio da viola caipira, protagonista entre os instrumentos, na faixa que abre o disco.



Elemento essencial em boa parte das músicas, o sintetizador e as bases eletrônicas por trás da produção não é por acaso. Bemti carrega influências diversas, mas em Era Dois destila a identidade na qual prefere ser lembrado: synthpop com viola caipira em composições sob o olhar queer. Dito isso, o registro passeia pelas amarguras de um término de relacionamento, negação do amor, a purificação e a vontade de encontrar alguém de novo – ciclos de quem coloca o coração à frente numa era em que os amores são líquidos.

“Depois de tanto tempo ouvindo os discos / Que me ensinaram a amar sem medo / Mas quanto mais eu amo / Mais tenho que me refazer”, canta em “Me Dei Um Novo Nome” sobre o quanto nós somos ensinados sobre o amor romântico e como, na prática, ele pode ser doloroso. Ele expõe as feridas e clama por uma salvação ao relacionar o novo nome com outra personalidade.

Enquanto isso em “Eu Te Proíbo de Ter Esse Poder Sobre Mim”, ele desabafa sobre uma relação abusiva e encerra, de forma sutil e serena, qualquer tipo de ligação com esse passado. Combinando a viola com percussão despojada, a produção entrega uma das melodias mais libertadoras da obra. Já em “Tango”, colaboração bem-sucedida com o pernambucano Johnny Hooker, destila melancolia e ressentimento, uma ode ao lamento de um amor perdido com produção acompanhada de synths delicados, violinos e castanholas vibrantes para criar o cenário perfeito de um tango flamenco.



Quanto a variedade de estilos sonoros, a conhecida “A Gente Combina” serve de respiro para o coração. Flertando com o post-punk, ele descreve o início de uma paixão em tempos de Tinder, na qual criamos expectativas sobre uma relação na medida em que descobrimos qualidades em comum. Em “Jaguar”, cantado inteiramente em inglês, Bemti enxerga a necessidade de se amar antes de tentar amar alguém.



O álbum caminha até o processo final de cura, secando as feridas e abrindo espaço para uma nova relação. “Me foi negado um anjo / Mas Deus me mandou outro que é você”, canta o artista com a colaboração do trio curitibano Tuyo. Beirando o sentimento de tranquilidade e doçura, ele encerra o álbum com uma reflexão – todo processo de cura pós término demanda descarga emocional, autoconhecimento e amor próprio para, enfim, concluir o processo de catarse.



Era Dois é, acima de tudo, um disco sobre a dor e as delícias do amor por meio da experiência de Bemti. Na obra, ele usa a sua história como exemplo para confortar corações desolados com o sentimento de que sempre vai existir uma cura – na maioria dos casos, o tempo é a própria redenção.

O álbum conta também com participações de Natália Noronha, da banda Plutão Já Foi Planeta, na faixa “Às Vezes Eu Me Esqueço de Você”; Marisa Brito em “Carta a um Marinheiro” e Fernanda Kostchak, do Vanguart, que toca violino em “Tango”.


Capa de Era Dois

O disco foi lançado de forma independente, assim como a produção dos videoclipes lançados. “Eu fiz esse disco e os clipes de uma maneira 100% independente, tudo à custo próprio. Vai ser um trabalho de formiguinha, de tentar chegar nas pessoas. Agora com a repercussão de ‘Tango’ eu já vi muita gente em todas as redes sociais pedindo show nos mais diversos lugares aqui do Brasil. Então eu espero que isso se amplifique”, encerra Bemti (citação para a Noize).



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