Florence + The Machine encontra alento na solidão e perda em ‘High As Hope’



Quarto álbum da carreira de Florence + The Machine, High As Hope é exatamente aquilo que nós esperávamos de um disco da banda – sem espaço para decepções. Liderado por Florence Welch, 31, o registro foi produzido inteiramente pela artista em parceria com o amigo de longa data Emile Haynie – conhecido por trabalhos com Lana Del Rey, Dua Lipa e Kanye West, além do próprio disco We Fall (2015), onde Welch empresta os vocais na canção “The Other Side”.



O trabalho também conta com colaborações de Jamie xx e Kamasi Washington, em “100 Years” e “Big God”, Andrew Wyatt em “June”, Sampha em “Grace” e Tobias Jesso Jr. em “The End Of Love”, “Grace” e “Hunger”. Esse é o trabalho mais pessoal e íntimo dos britânicos e, segundo a cantora, foi todo produzido sob o seu olhar – aqui, ela se refere aos discos anteriores, em que deixava o processo produtivo nas mãos de outros produtores.

High As Hope é o resultado de meses de inspiração através de livros, poesias e músicas que a influenciaram – de artistas como Fiona Apple, Patti Smith e Prince. Também marca um período de muita reflexão, solidão e a busca por um tipo de amor que nunca era totalmente suprido.



De um poema, surgiu a canção “Hunger”, que diz basicamente sobre um tipo de amor, muito além do amor romântico, e que nós estamos habituados a sentir a falta, buscando por reservas externas quando, na verdade, o amor próprio é o que nos preenche. Neste espaço, Welch enxerga que a necessidade de curar solidão é uma questão espiritual e fator comum à todas as pessoas – e tá tudo bem ser assim.

Há ainda a despreocupação em criar canções estruturadas, receita típica do repertório da banda, quando o foco são as poesias. Em “Big God”, vemos uma artista excedendo criatividade para apresentar uma canção melancólica, íntima e até mesmo fúnebre. O lado espiritual e romântico novamente entra em comunhão, dessa vez para expurgar sentimentos ruins de uma relação fadada à indiferença.



Em uma entrevista passada, ela avisou que o seu próximo disco não seria exatamente o que nós estávamos acostumados a ouvir. O campo, antes dominado pela redenção, dá lugar a memórias e metáforas quentes sobre a ideia do amor romântico – como vemos em “South London Forever”, uma clara celebração à infância e ao primeiro amor, vivido no Sul de Londres. “Nós subimos no telhado do museu e alguém fez o amor no chão / E eu esqueci meu nome e o caminho de volta para a casa de minha mãe”, canta.

Os acordes, antes prioridades em faixas do Lungs (2009) e Ceremonials (2011), ficam em segundo plano no resultado final. A percussão crua e quase acústica é um dos fatores marcantes, um lance assertivo da cantora em trocar experiências para quem acompanha a sua trajetória. “100 Years” mais parece ter saído de uma sessão íntima na sala de estar, assim como “Sky Full Of Song” fez o retorno do grupo soar menos espalhafatoso (comparado aos carros-chefes “Shake It Out” e “What Kind Of Man”).



“Patricia” é uma homenagem assumida à cantora Patti Smith, que tanto preencheu os livros de poesia da cantora, assim como as mídias sociais. Segundo Welch, a relação do amor que Smith tem pelo trabalho é uma inspiração. Cortejada por violinos, harpa e trombones, a canção alcança o máximo de Florence + The Machine que conhecemos, soando como um complemento do disco anterior. Aliás, o desfecho da canção é um sample da faixa “How Big, How Blue, How Beautiful”.

O título do novo registro seria “The End Of Love”, nona faixa do repertório atual, mas não aconteceu para evitar conclusões negativas sobre a ideia de eximir o romantismo das composições. Segundo teorias, a música é para a avó, que tanto lutou para o bem-estar da família quando era pequena. Soando menos terrena do que as composições anteriores, Florence conta a partir de um sonho o quanto uma perda é dolorida, mas que o amor nunca será preenchido por inteiro. Aparentemente, a cantora se refere à perda da avó, que se suicidou quando era criança.

O High As Hope é uma obra cercada por solidão, perdas e lamentos, mas que busca sanar esses problemas da forma que lhe é conveniente. Ter esperança, no fim das contas, é só uma questão de enxergar no quanto isso pode ser solucionado quando você entende o real motivo deles existirem. Florence não deixa nada pendente, conhecer a si mesmo e entender o que te motiva a ser feliz é o propósito de qualquer ser humano. É como se ela transformasse o medo em dança e o amor próprio em evidência.


Capa de 'High As Hope'

O álbum soa linear e ritmado, mesmo com a mudança de sons e ausência de transformar composições em grandes espetáculos. Deixando o espaço místico de seres fantasmagóricos para pisar firme na terra: a música soa mais atraente quando reduzida e sua voz soa mais potente sem grandes pontes. As letras ficam mais saborosas quando ela deixa as metáforas expressionistas de lado para cantar sobre os pequenos detalhes.

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