Entrevista Exclusiva: Peartree destila o seu universo sci-fi no videoclipe de ‘Gonna Get Tired’



Felipe Pereira é o nome por trás do projeto nacional Peartree ao lado de Ray Pissinati. Depois de uma boa recepção do EP ‘Intro’, que nos presenteou com as faixas “Hate To Say I Told You So” e “Who You Are”, o paulista encerra a fase com o videoclipe de “Gonna Get Tired”, um eletropop cheio de groove e influências da disco dos anos 80/90.

Sob a direção de Guilhermo Santos, o tratamento visual da canção coloca os membros da banda em conexão com o universo sci-fi proposto desde o primeiro clipe.



Conversamos com Felipe Pereira sobre o processo criativo da banda, as dificuldades de ter um projeto independente no Brasil e os planos para o futuro. Confira abaixo:

O EP de estreia ‘Intro’, de 2015, elevou o nome Peartree num cenário pouco explorado pelos artistas nacionais de hoje. Como surgiu a ideia de criar esse projeto?

Esse projeto surgiu de uma vontade muito forte de explorar o potencial do que era então uma recém-adquirida habilidade, a produção eletrônica. Sempre fui músico e sempre tive (alguma) banda. Nunca consegui me manter muito longe dessa arte. No entanto, algo que eu nunca tinha feito de forma mais objetiva e, digamos, séria, era aprender produção decentemente. Eu sabia que todo o meu perfeccionismo (aka chatice extrema) poderia eventualmente ser útil na produção, mas, ainda assim, nunca tinha tentado fazê-la por conta própria. Foi quando eu comecei a estudar e aprender e sugar conhecimento de alguns amigos meus que finalmente me dei conta de que seria possível juntar um lado orgânico da música com elementos eletrônicos e, assim, ter em mãos todas as ferramentas que eu precisava para tirar da cabeça a maioria das minhas ideias estranhas. E, até esse ponto da minha vida como músico, já tinha juntado instrumentos e equipamentos suficientes para conseguir gravar tudo em um "home studio".

A sonoridade ora oitentista, ora etérea, veio de influências diversas que tive ao longo da vida. Alguns sons vieram por questões nostálgicas, enquanto outros simplesmente porque transmitiam perfeitamente um clima que eu queria transmitir. Muito do que gosto de fazer tem a ver também com cinema/audiovisual, que também é outra paixão (e, até certo ponto, fonte de renda) minha. Gosto muito quando consigo levar alguém que está ouvindo minha música a digeri-la como uma espécie de trilha sonora. O timbre do synth é um xodó meu, mas nada impede de eu um dia me cansar do mesmo e querer voltar para coisas mais orgânicas. No momento, piro no poder que essa textura sonora tem sobre mim.

Partindo de tudo isso, fazia muito sentido eu reunir minhas ideias e ver o que rolava. Graças a Deus, não só consegui achar amigos que compartilhavam do mesmo gosto e que concordaram em tocar comigo ao vivo, como também consegui ingressar nesse universo lindo que é a produção musical e daí, aos poucos, apareceu o EP.



A dúvida que muitos devem ter: porque cantar em inglês? O processo criativo das músicas flui mais facilmente em outra língua?

Eu morei nos EUA durante um período crucial da minha infância e pré-adolescência e ainda voltei algumas vezes depois de mais velho. Isso, querendo ou não, teve uma influência enorme sobre mim. A primeira vez que voltei pro Brasil, falava português com sotaque (risos) e tinha dificuldade em me aceitar 100% como brasileiro. O choque foi muito grande. Ao poucos me rendi novamente à beleza da nossa cultura, mas, em relação à minha formação musical, muito do que absorvi ficou. Para mim, é muito natural compor em inglês. Se algum dia o fizer com a mesma facilidade em português, não hesitarei em compor algo. A questão é que, atualmente, inglês é simplesmente o que me chega mais fácil e de forma mais natural.

Sabemos que ser um artista independente no Brasil é um desafio, porém atualmente muitos estão optando por gravarem discos sem contrato com grandes gravadoras – inclusive financiando trabalhos com ajuda de fãs em sites como o Catarse. Lançar o EP de forma independente também foi um desafio para você?

Adoro demais aprender! Sou um "info junkie" em todos os sentidos, mas especialmente (e obviamente) em relação aos assuntos relacionados às minhas duas paixões principais: música e cinema. Lembro que, desde adolescente, adorava estudar como determinados filmes eram feitos e acabava passando por cada área de conhecimento que fazia da obra o que ela era. Digo isso porque eu acredito que, hoje em dia, com tudo o que temos de informação à nossa disposição, é possível que se aprenda a criar "sozinho". O tanto de artista bom que vejo hoje em dia e que faz tudo dentro dos "limites" de um notebook me deixa pasmo. Gente muito mais nova que eu, inclusive. Dou destaque aqui para Dolphinkids, por exemplo. Conheci o trabalho deles recentemente e fiquei chocado com a qualidade e alma.

Ao mesmo tempo que os novos moldes da indústria mataram muita coisa interessante, as tecnologias novas nos dão uma chance de sermos tão bons quanto quem tem muito dinheiro/recurso e isso é lindo!! Só é preciso muita resiliência, porque é fato de que as primeiras coisas que a gente produz nunca acabam do jeito que queremos. Eventualmente, com muita dedicação, amor e noites não dormidas (porque, quando você trabalha o dia inteiro em um emprego regular, a madrugada é o que sobra, né? hehe) você começa a aprender a fazer coisas boas até chegar no ponto de conseguir criar um EP inteiro, do começo ao fim.

Resumindo, ser um artista independente é sim muito difícil, mas não há desculpas. Quem ama de verdade sabe que vai achar um jeito de fazer a coisa rolar, até porque não existe a opção de deixar na cabeça uma ideia que está implorando pra sair. Eu não busco fama, nome ou foto em capa de revista (se bem que dou boas-vindas se acontecer, hehe), mas busco intensamente chances de parir uma ideia na qual eu acredite. Algo que pessoas escutem e falem para si próprias "é isso!". Por mais difícil que seja, nenhum obstáculo consegue fazer um músico parar de compor. Só o farei se algum dia não sentir mais a vontade que hoje sinto.



O videoclipe de “Gonna Get Tired” está cheio de simbolismos, cores e luzes neon. Como foi o processo de produção?

Fazer esse clipe, assim como o anterior a ele, foi um processo lindo. Tenho a sorte de ter trabalhado com o Guillermo Santos, diretor e produtor que eu conheci fazendo jobs para publicidade e afins. Ele, assim como da outra vez, entendeu completamente a proposta estética que eu tinha em mente e não poupou esforços para trazê-la à realidade. A gente contou também, além de uma equipe maravilhosa organizada pelo Gui, com a ajuda da Aline Amaral na direção fotográfica, e isso foi crucial para conseguir viabilizar alguns conceitos.

Eu também não pude deixar de trabalhar na estética, nos efeitos visuais e na edição do clipe, como da outra vez. Fazer o que a gente gosta com projetos que a gente gosta é outra coisa! Em relação ao conceito, eu quis manter alguns dos elementos simbólicos do projeto, só que dessa vez em um contexto diferente. Se o primeiro clipe representava mais a alienação, este mostra que estamos em um contexto diferente, no qual os seres estranhos não são mais os elementos geométricos simbólicos vagando de forma solitária pela terra, mas sim os próprios músicos que aparentemente se encontram em um ambiente alheio às suas respectivas realidades. Pirar no lado "sci-fi" da criação desse clipe foi uma das partes mais legais (naves e planetas distantes)! Como fã assumido do gênero, posso dizer que é uma das coisas mais divertidas de se fazer!

Conta pra nós, o que tem tocado ultimamente na sua playlist?

Tenho ouvido muito Jamiroquai (dado que saiu coisa nova dele recentemente), Empire of the Sun (último disco é "cheesy", mas adooro), Macklemore (porque sim, hehe), Roosevelt, Tame Impala, ZAYN, Savoir Adore (voltei a ouvir recentemente por causa do show que tiveram aqui), trilha de La La Land (porque né?), Twenty One Pilots (especialmente uma participação especial que eles fizeram com Mutemath… muito bom!), Bonobo, Pond e alguns que eu nunca parei de ouvir, como M83, Mutemath, St Lucia, Sigur Rós e Bombay Bicycle Club.

Depois de uma bela recepção do EP, podemos esperar o primeiro disco do Peartree?

Pode sim! Como falei, é impossível não continuar compondo e produzindo. Tenho muitas coisas novas que não vejo a hora de poder compartilhar com o mundo. Só não há, por hora, uma data certa para esse disco, mas ele está no forno. Isso é fato. Estou "fechando" agora o ciclo do EP com o clipe de "Gonna Get Tired", mas muito em breve teremos músicas novas lançadas para abrir esse novo e lindo ciclo! Mal posso esperar!
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