Resenha: Crystal Castles aposta em uma fórmula repetida em 'Amnesty (I)'



Se tem uma palavra que pode definir ‘Amnesty (I)’, quarto disco de inéditas do duo canadense Crystal Castles, é incerteza. Sucedendo o morno ‘(III)’ (2012), trabalho que apresentou poucos momentos realmente inventivos em sua extensão, o novo álbum de Ethan Kath e sua nova parceira de composição Edith Frances revela-se como uma prova de fogo a ser superada, visto que é o primeiro registro do produtor sem a vocalista Alice Glass, que deixou a banda em 2014.

Não ter mais Alice comandando a bagunça organizada característica do Crystal Castles não foi necessariamente o principal problema a ser superado pela dupla, uma vez que Frances consegue lidar com o caos imposto pelos synths desgovernados de Kath com maestria, criando composições verdadeiramente interessantes, como o lead single “Frail”, que apesar de carregar resquícios do trabalho anterior, funcionou bem como uma reapresentação da banda ao cenário alternativo.


Apesar disso, é possível enxergar em ‘Amnesty (I)’ a concretização de uma previsão realizada há algum tempo. Aparentemente, a capacidade criativa de Ethan chegou ao seu limite, entregando faixas que causam sensação de déjà vu ao ouvinte, como “Chloroform” e “Sadist”, canções que lembram em diversos momentos outra criação de Kath, “Pale Flesh”, música presente no trabalho antecessor. Mais um caso digno de atenção é a faixa “Kept”, canção que conta com samples de “Other People”, do duo franco-americano Beach House e se apresenta como uma mistura menos inspirada de “Vietnan” e “Intimate”, ambas presentes em ‘(II)’ (2010), apostando em uma sonoridade apelativa e simplista para os padrões da banda.


Mesmo os seus momentos mais acertados – como o dream pop sombrio de “Femen”, digno de filmes de terror, “Fleece”,um synthpunk convincente guiado pelos vocais autotunados de Frances, “Ornament”, que funciona como se o duo francês Justice tivesse um encontro com o witch house, e “Their Kindness Is Charade”, canção que retrabalha o single “Deicide”, divulgado em julho do ano passado – ‘Amnesty (I)’ se perde soterrado pela massa indigesta de sintetizadores desorientados que apenas revisitam os trabalhos anteriores do projeto, sem acrescentar algo realmente novo à discografia da banda.


O quarto disco de estúdio do Crystal Castles não é necessariamente um trabalho ruim, mesmo falhando em entregar novidade. ‘Amnesty (I)’ apresenta-se como a resposta esperada pelos fãs mais sedentos pelo som da banda, sem lançamentos completos há quatro anos e que estava em um momento de incerteza quanto ao futuro. Serve também como a apresentação oficial de Edith Frances como nova vocalista oficial do projeto.



O disco marca o ouvinte mais pelo que representa na história do Crystal Castles do que pela sua sonoridade em si, compartilhada apenas como uma reciclagem dos trabalhos anteriores em muitos momentos da obra. Se você, ouvinte, busca escutar o álbum sem compromisso, apenas com o objetivo de se divertir sem esperar algo novo, ‘Amnesty (I)’ é uma boa saída para a sua fome de eletrônica convulsiva, característica dos canadenses. Se não, recomendamos que escute ‘(I)’ (2008) ou ‘(II)’, trabalhos que sintetizam de forma mais satisfatória a ideia central explorada pelo duo.


Ouça: “Femen”, “Fleece”, “Frail”, “Ornament” e “Their Kindness Is Charade”.
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