Resenha: Metric abusa dos sintetizadores no disco 'Pagans In Vegas'



Depois de se aventurar no indie rock com o ótimo ‘Synthetica’, de 2012, o Metric, quarteto formado por Emily Haines, Joules Scott-Key, James “Jimmy” Shaw e Josh Winstead, entrega um disco quase totalmente baseado em sintetizadores. Conseguiram eles superar seu último registro? É o que tentarei responder nas próximas linhas.

Bastou uma faixa apenas para fazer com que meus ouvidos se inclinassem ao novo trabalho dos canadenses: “The Shade” fez uma excelente apresentação de ‘Pagans In Vegas’, captando a atenção de qualquer pessoa que estivesse ouvindo música em maio desse ano.

Quando digo que o trabalho é “quase totalmente baseado em sintetizadores”, afirmo que as guitarras e seus riffs que tanto nos fizeram dançar ainda estão lá, mas dessa vez não são as estrelas do show. Levando o disco de ponta a ponta, os synths estão mais poderosos que nunca. Em uma comparação muito ousada e talvez exagerada, o que vemos é Metric soando como uma versão orgânica de Chvrches, e enfatizo isso ao lembrar da existência de preciosidades como “Fortunes” e seu refrão sensacional combinado com sua eletrônica inquieta.

Contando com duas faixas completamente instrumentais – “The Face Pt. 1” e “The Face Pt. 2”, ‘Pagans In Vegas’ é um disco surpreendentemente rápido, disfarçando muito bem sua duração de quase cinquenta minutos. Quando se der conta, já estará na terceira ou quarta execução do trabalho e, assim como eu, caindo de amores pelo trabalho.

A abertura do disco não poderia ser feita por faixa melhor: “Lie Lie Lie” é introduzida pelas guitarras características do quarteto canadense. No entanto, elas logo dão espaço aos sintetizadores tão apaixonantes que ‘Pagans In Vegas’ carregam, junto de uma Emily questionadora e um refrão contagiante que vão te fazer cantar junto antes que perceba. Certamente é uma das melhores faixas do registro e uma excelente introdução.


“Fortunes”, quarta faixa a ser divulgada antes do lançamento do registro e segunda na tracklist oficial, funciona como um encontro de Chvrches e Eliot Sumner em “Dead Arms & Dead Legs”, com sintetizadores nervosos e um refrão que exala melancolia, acompanhado de uma apaixonante percussão.

Dando continuidade ao andamento do trabalho, somos apresentados ao primeiro single do disco. “The Shade” tem tudo o que precisa para se tornar um dos maiores hits da carreira do Metric: uma produção redondinha, letra com substância e um apelo pop inigualável, estando pronta para animar muitas festas pelo caminho.


“Celebrate” é uma das desconhecidas do trabalho, se assim posso dizer. Firmada sobre uma sólida base eletrônica desde o seu início, funcionando de forma acelerada enquanto Haines soa quase como Madonna (!), cantando sobre esperar um pouco de reciprocidade em um relacionamento. Seguindo a mesma ideia de “Fortunes”, é uma grata surpresa no trabalho.

Chegando já quase na metade do disco, reencontramos “Cascades”. Segunda faixa a ser divulgada, conta com produção grandiosa e submersa por completo em uma massa densa de sintetizadores, trazendo em sua estrutura solos extensos, os vocais modificados de Emily e grande apelo para as pistas de dança, ainda que alternativas. Uma das melhores faixas do trabalho.


“For Kicks” traz o melhor do Metric do passado para dentro de ‘Pagans In Vegas’. A eletrônica pegajosa dá uma trégua e permite que as guitarras apareçam um pouco mais no trabalho. A coexistência pacífica de ambas apresenta uma composição grandiosamente pop, enquanto a vocalista canta sobre um amor que a está prejudicando, questionando o outro em versos como “Why'd I have to go and break your heart for kicks? / Why'd I have to go and break what can't be fixed? “.

“Too Bad, so Sad” é a faixa que nos apresentou ao aplicativo da banda, “Metric: The Pagan Portal”. Assim como Björk e seu ‘Biophilia’, a banda disponibilizou uma aplicação mobile para que os fãs pudessem saber mais sobre as músicas que compõem o disco e tivessem uma experiência mais imersiva e aprimorada, embora longe da megalomania apresentada pela islandesa. Quanto à faixa, vemos um eletropop agressivo cantado por Haines de maneira angustiada, ainda que emita viciantes “Oh yeahs” e “woo-hoos”, que dificilmente sairão da sua cabeça.


“Other Side” conta com uma introdução simples, compostas por sintetizadores discretos. Única faixa a contar com vocais masculinos, a composição é um dueto de Emily e James. Funciona como uma boa quebra para o disco, sendo encerrada com suaves violões.

“Blind Valentine” traz percussão mais evidente e os vocais levemente modificados de Emily, mas se torna apagada após suceder uma faixa tão boa como “Other Side”.

Outra grata surpresa do disco é “The Governess”. Com um clima quase acústico em alguns momentos, a faixa dissipa temporariamente a nuvem de sintetizadores em que o ouvinte está mergulhado, com uma bateria ainda mais evidente que antes e cordas acompanhando os vocais cristalinos de Emily. Em tempo: “The Governess” soa quase como uma composição perdida dos anos 90 e início dos 2000 em nosso tempo.


“The Face Pt. 1” traz o Metric brincando com seus sintetizadores de maneira despretensiosa, mostrando todos os truques que sabem fazer ao tornar o eletropop gênero principal do registro. Instrumental, a canção traz apenas em seus segundos finais algumas poucas palavras.

“The Face Pt. 2” é uma quebra no disco: ainda que funcione como uma continuação da faixa anterior, a composição abre espaço para uma eletrônica atmosférica e levemente ruidosa, funcionando como um convite para o ouvinte descansar após passear por todo o trabalho.



‘Pagans In Vegas’ é um trabalho interessante na carreira do quarteto canadense. Funciona bem como conjunto e tem seus pontos altos em sua execução. O trabalho é afetado pelo atual paradigma que temos visto no mundo da música alternativa – uma leve inclinação para acordes mais eletrônicos nas composições, o que não tira o brilho do registro em nenhum momento. O sexto álbum de estúdio da banda traz um Metric maduro e mais que nunca amigo dos sintetizadores, mantendo a qualidade vista pelo ouvinte nos discos anteriores.


Ouça: “Lie Lie Lie”, “Fortunes”, “The Shade”,”Celebrate”, “Cascades”, “For Kicks”, “Other Side” e “The Face Pt. 2”.

 NOTA: 8,5/10 

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