Resenha: o amadurecimento brilhante do CHVRCHES no disco 'Every Open Eye'



'Every Open Eye', do Chvrches, é um dos álbuns mais aguardados do ano no meio indie. As prévias de "Clearest Blue" e "Leave a Trace" já demonstravam uma Lauren Mayberry mais furiosa - e ainda mais envolvida com o feminismo, dadas as declarações da vocalista sobre a misoginia na indústria musical.

É o segundo lançamento do grupo, que fez sua estreia com 'The Bones of What You Believe', de 2013. Neste trabalho, a banda escocesa repete a fórmula do trabalho anterior, sem cair na monotonia: sintetizadores potentes, uma vocalista entoando versos fortemente e composições complexas. Com muitas músicas sobre superação, 'Every Open Eye' persiste no synth pop divertido do Chvrches, com músicas chiclete e uma habilidade invejável para abandonar os tradicionais instrumentos de cordas.



"Never Ending Circles" é genial por traduzir sonoramente as formas gráficas sugeridas pelo título da canção. Apesar de ser uma metáfora, os círculos, que nos movem em um loop pela canção são sentidos fisicamente. É uma ótima escolha para abertura do álbum, indicando um amadurecimento do Chvrches.

"Leave a Trace" segue o legado de hits do álbum. A canção mais pop de todo o trabalho traz versos chiclete, que certamente serão entoados pelos públicos da banda. Foi a primeira faixa de 'Every Open Eye' a ganhar um vídeo, que apesar de simples, possui um resultado estético inspirador. O vídeo recebeu uma série de críticas machistas de trolls de internet, resultando nas declarações de Lauren sobre o machismo na música e sobre a necessidade de solidariedade às mulheres que sofriam os mesmos ataques sem serem defendidas.



"Keep You On My Side" é contagiante e chama atenção pelas batidas aceleradas. Os versos falam sobre um alma inquieta, que se encontra em outra, tenta manter-se íntegra diante de todas as adversidades e agarrar todas as chances de manter-se unida à outra pessoa.

"Make Them Gold" traz o clima de amizade à tona. É como estar entre velhos conhecidos, rindo das próprias besteiras: "We are made of all our mistakes/ We are falling but not alone/ We will take the best parts of ourselves/ And make them gold". Tenho uma vontade adolescente de destacar os versos e transformar em pôsteres, tatuagens e camisetas.

 Já "Clearest Blue" tem uma das melhores surpresinhas de 'Every Open Eye': a canção cresce rapidamente e explode em batidas contagiantes. A performance da canção durante o Pitchfork Festival oferece uma amostra do poder da canção sobre a multidão. É na explosão de sintetizadores que Lauren se entrega ao som, e foi neste momento que eu me cedi à canção.



"High Enough To Carry You Over" traz a primeira aparição dos vocais de Martin Doherty. Os sintetizadores oitentistas logo nos remetem a Giorgio Moroder e ao resgate feito recentemente pelo Daft Punk em 'Random Access Memories'. Lauren volta em "Empty Threat" com um pop deliciosamente chiclete, com os versos de uma garota que tenta superar as boas memórias deixadas por alguém que partiu.

Já "Down Side Of Me" traz uma das melhores performances da voz de Lauren. É uma canção capaz de tranquilizar almas agitadíssimas, e há uma ótima interação entre os backing vocals de Martin e Iain e a vocalista. "Playing Dead" provoca os headbangers da música eletrônica. É inevitável não se entregar aos ecos de "go" quando terminamos de entoar o verso "You can tell to try and I won't go". O verso "I'll chase the skyline more than you ever will" evoca todo o poder da canção sobre sentimentos mistos de superação e mágoa. Martin Doherty e Iain Cook se destacarão nas performances de "Bury It": os sintetizadores fazem uma ótima atuação na faixa.

Preciso me esquivar de qualquer impessoalidade que tentei ter ao redigir esta resenha: "Afterglow" é uma das canções mais lindas de 'Every Open Eye'. É um ótimo encerramento para o álbum, que tem um clima muito dançante e divertido. É o momento de serenidade do trabalho, no qual nos entregamos ao poder dos vocais de Lauren e somos carregados por um instrumental introspectivo.



A edição especial de 'Every Open Eye' inclui três faixas extras: a destoante "Get Away", na qual a voz de Lauren é tristemente distorcida, "Follow You", com os vocais de Martin Doherty, e a morna"Bow Down". Exceto pela primeira, são boas faixas, mas o álbum fica melhor finalizado com 'Afterglow' - o famoso "está bom, pode parar".

Na resenha sobre 'The Bones of What You Believe', para o Pitchfork, Larry Fitzmaurice disse que o Chvrches "incorpora o que uma geração enraizada na música eletrônica busca em uma banda de rock, pegando as texturas dançantes favorecidas pelo (festival) Electric Daisy e aplicando-as ao fazer musical arrebatador do M83 e Passion Pit".

É uma banda de sonoridade divertida, apesar de apresentar versos ligeiramente melancólicos. Lauren Mayberry ainda é uma vocalista tímida em suas performances, talvez inconsciente de seu poder musical. 'Every Open Eye' é um salto na carreira do trio escocês, que precisa se preparar para apresentações explosivas: o segundo álbum do Chvrches lança fogos de artifício sobre o triunfo do synth pop.



 NOTA: 9,5/10


Ouça: "Afterglow", "Never Ending Circles" e "Clearest Blue".
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