Resenha: Wilco - 'Star Wars'



Começo esta resenha com um aviso franco: este texto não foi escrito por uma aficcionada por Wilco. Conhecia pouquíssimo sobre a banda quando me propus a avaliar 'Star Wars', justamente para que pudesse ouvir os elementos do álbum com frescor, sem vícios. Bom, eu não era apaixonada pela banda, mas o trabalho lançado de surpresa no último 16 de julho abraçou-me fortemente e ando um tanto fascinada pelo universo de Jeff Tweedy e companhia. Aos poucos, entendo os discursos apaixonados em torno da banda.

Ontem, durante o live streaming do Pitchfork Music Festival, em Chicago (terra natal da banda), fazia minhas anotações mentais como uma estudante. Aos poucos, percebi que o Wilco poderia ser agressivo como as guitarras de Thurston Moore e sustentar leveza o suficiente para trazer um baterista que passa o show a sorrir e inserir singelos assovios em meio a um duelo de guitarras.

A divulgação de 'Star Wars' surpreende: o álbum foi disponibilizado para download gratuito no dia 13 de agosto. Um streaming do trabalho também foi disponibilizado no Youtube. O lançamento oficial do álbum será no dia 21 de agosto e o vinil chega em 27 de novembro.

Se a proposta de disponibilizar um álbum gratuitamente faz estremecer as canelas de alguns, o Wilco tem experiência suficiente para uma jogada tão ousada. 'Yankee Hotel Foxtrot' (2002), um dos álbuns mais bem sucedidos da banda, foi recusado pela gravadora Reprise Records. Os direitos do álbum foram cedidos gratuitamente ao Wilco e o trabalho foi disponibilizado para streaming gratuito na Internet. Logo depois, o álbum foi vendido para a Nonesuch Records. Ambas as gravadoras eram subsidiadas da Warner Records.

'Star Wars' inicia-se com uma introdução instrumental ao melhor estilo da sonoplastia de "Interstellar"(Nolan, 2014): em uma intensa exploração do estéreo, "EKG" reúne uma combinação de dissonâncias nas guitarras em ritmo crescente e provoca a sensação da vinda de uma estrela, um percurso veloz pelo espaço. Creio ter sido exatamente aqui o início do meu fascínio pelo Wilco.

"More..." traz pela primeira vez no álbum os vocais de Jeff Tweedy em versos cativantes. Estes vocais logo se perdem em uma interferência crescente de guitarras distorcidas, que assumem o papel protagonista na canção. Já "Random Name Generator" tem um tom engraçadinho, com versos ágeis e um título que poderia explicar o nome do álbum. Quando o instrumental assume as rédeas da canção, há um excelente desempenho das guitarras e dos sintetizadores.

"The Joke Explained" traz um Jeff Tweedy folk, com vocais largados, ainda que o tom pareça bastante calculado. Neils Cline e Pat Sansone, novamente, fazem um trabalho sujo com as guitarras, o que é muito bem vindo. "You Satellite" é a primeira balada do álbum. Os sussurros são doces em meio a guitarras e baixos progressivos. A bateria, obediente e introspectiva, produz o som de uma marcha e, enquanto isto, a canção se expande como uma galáxia.



"Taste the Ceiling" encaixa-se em fórmulas para canções doces, mas não deixa de cativar. Ao fundo, teremins reproduzidos em sintetizadores sugerem a aproximação de Objetos Voadores Não Identificados. É uma faixa com ares indie folk. Então chegamos a "Pickled Ginger" e provamos um repentino sabor ácido com guitarras distorcidas e uma bateria que novamente se aproxima do rock'n'roll.

A canção "Where Do I Begin" é a segunda balada do álbum, extremamente doce até que Glenn Kotche invade a canção com uma bateria ao contrário. Aqui, terei de discordar da equipe Move That Jukebox: a interferência ácida e barulhenta é muito bem-vinda e renderá ótimos momentos nas performances ao vivo da banda como a que vimos no P4k Music Festival durante a performance de "Via Chicago". Os instrumentos de corda culminam como um choro.

"Cold Slope" soa próximo ao grunge, mas é um tanto arrastada em relação a todo o álbum. Talvez porque os instrumentos de percussão e de cordas estejam um tanto alinhados demais, sem rebeldias ou aparições repentinas. "King of You" não traz o melhor dos vocais de Tweedy e todo o instrumental da canção soa cansativo, embora ela se encaixe na repetida fórmula do sexteto. Um esbarro no frescor de 'Star Wars'.

"Magnetized" retomou o meu entusiasmo pelo trabalho, embora seja uma canção bastante introspectiva. Há aqui uma lacuna para o que denominamos como "solidão boa", um momento de olhar para dentro e não nos sentirmos sós. O caótico kautrock demonstra aqui o seu potencial para a harmonia, e todos os instrumentos parecem cantar baixinho para si. Jeff Tweedy sussurra em nossos ouvidos, nos guiando para o fim da saga intergaláctica do novo trabalho do Wilco.

O Pitchfork Music Festival não poderia ter tido uma data mais conveniente: um dia após o lançamento do álbum, o Wilco tecia suas performances com energia e uma forte ligação com o público. Pareceu-me que a maioria das pessoas que os assistiam já estavam próximas das novas faixas, embora ainda não as cantassem. Indicativo certeiro do poder de 'Star Wars' sobre o público do sexteto de Chicago.

Passaram-se quatro anos desde o 'The Whole Love', último trabalho do Wilco e meses após o lançamento de 'Sukierae', trabalho solo de Teedy junto de seu filho Spencer. Afinal, por que lançar um álbum desta importância sem quaisquer avisos e gratuitamente? Na página oficial do Facebook da banda, Jeff Tweedy declara: "Bem, a principal razão, e creio que não precisamos de outra, é que sentimos que seria divertido. Que coisa é mais divertida do que uma surpresa?".

Apesar do delicado arranjo vintage provocado pelo gatinho branco e as flores rosa chá na capa, 'Star Wars' é, sobretudo, um álbum de dissonâncias que, em um estado criativo e caótico de espírito, caem como uma luva. Almas mornas: fiquem longe daqui.


Ouça: "EKG", "You Satellite", "The Joke Explained", "Magnetized".

STAR WARS (2015)
WILCO
NOTA: 9/10
★★★★☆


dBPM Records
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