Resenha: Leon Bridges – ‘Coming Home’



Na última semana, os fãs do blues ganharam acesso a uma espécie de túnel do tempo. O jovem de 25 anos Leon Bridges lançou o aguardado 'Coming Home' (Columbia Records, 2015). Ele encarna o estilo por completo e o seu perfil no Instagram é uma referência para qualquer um que queira pesquisar sobre estilo dos artistas negros e sulistas americanos: fotos em preto e branco retratam homens elegantes, bem alinhados, que assumem a identidade racial com força e fé - embora, jovem globalizado que é, Leon não usa somente peças produzidas por velhos alfaiates da sua terra natal.

Todas essas referências visuais são um resgate sobre os modos de agir na terra do cantor e compositor nascido em Fort Worth, no Texas. Não tive o privilégio de encontrá-las na vida real, mas conheço por filmes as varandas suburbanas de Mississipi e Louisiana e são exatamente estas paisagens que evocamos ao ouvir o primeiro álbum de Bridges. As canções trazem narrativas de comunidades onde crianças crescem juntas e todos se conhecem.

'Coming Home' é, sobretudo, um álbum de reencontro, como bem ilustra a canção que dá título ao trabalho. É um novo olhar, tenro e respeitoso para as raízes do R&B e do blues. Aliás, as diversas vezes que Leon foi comparado a Sam Cooke, tanto pela postura elegante quanto pelo estilo de seu trabalho, me levaram a revisitar a obra de um dos maiores representantes do Rhythm and Blues nos anos 60. Para quem não conhece, indico a eletrizante "Bring It Home to Me", na performance para o clássico 'Live At The Harlem Square Club' (1963). Justamente após esta "pesquisa", percebi o valor do primeiro álbum de Bridges.



"Better Man" é uma das canções mais contagiantes de todo o álbum, só não é tão chiclete quanto a faixa título. Ele implora que uma garota lhe dê uma nova chance e duvido que, com um ritmo tão envolvente e com as oportunas aparições de backing vocals femininos, ela não tenha cedido com um sorriso no rosto.

Nesta linha de canções alegres, "Flowers" é um convite rockabilly para celebrarmos o dia: "so won't you come, baby?". Boas notícias correm por lugares em que raios de sol pairam sob as colinas, e é melhor você correr.



Já "Brown Skin Girl" é uma canção interessante, mas não tanto quanto o seu contexto. Leon Bridges afirmou em entrevista ao The Guardian que, quando ele chama por sua garota de pele marrom e olha para a plateia, ela simplesmente não está lá ou faz uma aparição tímida, quando duas garotas acenam.

O fenômeno deve-se a formação do atual público do blues, composto por homens velhos e brancos. Por falar na garota de pele morena, não duvido que um estudo sobre a figura feminina no blues renda descobertas interessantes. No trabalho de Bridges, as backing vocals arrematam brilhantemente a voz doce do cantor, especialmente nas canções "Smooth Sailin'", "Twistin' & Groovin" e "Shine". Nesta última, são elas que guiam os ápices sonoros da faixa, fieis ao estilo gospel que também tem presença forte no álbum.



"Lisa Sawyer" nos leva até os campos de algodão americanos, nas raízes da música negra. A mulher que nasce em Nova Orleans e é batizada no rio é a mãe de Leon Bridges, nascida em 1963. A mais nova dos sete irmãos tinha uma mãe vivaz e feroz e um pai que mantinha dois empregos para sustentar a família. Aos dezesseis anos, com um coração quente e uma voz encantadora, Lisa se encontra no cristianismo. Em "River", Leon Bridges retoma a fé da mãe e pede que o Senhor também o encontre, mesmo que ele seja um homem de muitos crimes e pecados.



O que me surpreende sobre 'Coming Home' é que, apesar das declarações de Leon Bridges sobre o público do blues, trata-se de um trabalho bastante acessível. Não sou devota do gênero e nem mesmo uma perita na língua inglesa, mas quando me dei conta, já estava cantarolando diversas canções do álbum enquanto arrumava o meu guarda roupa.

Minha irmã caçula, que não é grande fã do gênero, logo despertou os ouvidos e se aproximou para saber quem cantava aquelas "músicas legais". Não desprezo tais reações na avaliação de um trabalho como este, e creio que este seja um bom indício do potencial de popularidade de Bridges. 'Coming Home' é um belo começo e uma peça a ser polida para que se torne inestimável.


Ouça: "Coming Home", "Better Man", "Flowers" e "Lisa Sawyer".

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