Resenha: FFS – ‘FFS’



Quem já foi a algum show do Franz Ferdinand entende a energia que a banda transmite ao público. Quando vi Alex Kapranos de pertinho, dançando com um rebolado para lá de brincalhão, me apaixonei uma segunda vez pela proposta da banda. Não foi por acaso que dei um gritinho quando a banda escocesa anunciou, no início deste ano, um projeto em parceria com o Sparks, intitulado FFS.

Quando escutei pela primeira vez, fui surpreendida pela densidade do trabalho. Tive grande receio ao propor um review, porque a tarefa torna-se um tanto atrapalhada quando parte de uma fã, mas como não sou de seguir meus próprios conselhos, esfreguei as mãos e sacudi o acervo musical do Spotify em busca de mais referências sobre o Sparks, duo formado pelos irmãos Ron e Russell Mael, de Los Angeles.

Com 44 anos de carreira e 19 maravilhosas capas de discos, o Sparks exerce um papel quase "didático" no FFS, se considerarmos o respeito quase estudantil demonstrado por Alex Kapranos nas entrevistas sobre o projeto. Por consequência, 'FFS' soou bastante respeitoso à vasta bagagem da banda. Creio que o hit "Beat the Clock", produzido por Giorgio Moroder, lançado em 1979, seja um bom começo para compreendermos o FFS:



A aura "engraçadinha" de ambos os grupos permeia todo o trabalho do FFS. O projeto só aconteceu porque Alex Kapranos quebrou um dos dentes durante turnê pelo Uruguai e quando voltou a São Francisco para se tratar, se deparou com Ron e Russel no mesmo consultório odontológico - que, de acordo com a NME, é o mesmo onde se trata o fenômeno dos anos 80, Huey Lewis. O vídeo divulgado pela Domino Records para promover o lançamento mostra muito bem a que veio o FFS:



Vamos ao que interessa! "Johnny Delusional", a canção que abre o álbum, soa como uma das pérolas de 'Tonight' (2008), do Franz Ferdinand. Os vocais de Russell e Alex Kapranos compõe harmônicas camadas de uma narrativa dramática com backing vocals, que nos remetem a ruídos fantasmagóricos.

O hino de rejeição ganhou um vídeo dirigido por AB/CD/CD e ilustra com o que há de melhor nas possibilidades cinematográficas e aceitação em um flerte. Vale a observação tendenciosa: diante da filmografia do coletivo, que já trabalhou com o Panda Bear, Kasabian e Lily Allen, o vídeo de "Johnny Delusional" é uma obra prima.



"Dictator's Son" é uma das referências mais explícitas ao trabalho do Sparks para a música eletrônica nos anos 70 e 80. Narrando a história de um homem que se perde no consumismo, é uma das faixas do álbum que possuem temas violentos, tratados com ironia. As outras são "A Violent Death" e "Call Girl", que nos sugere convocar uma prostituta de uma maneira que somente o Franz Ferdinand faria.

'Bam Bam Diddy Diddy Bam Bam' ficarão bem afixados em sua cabeça após "Police Encounters". A canção tem uma grande harmonia na sobreposição dos vocais, e os teclados no estilo techno são uma reverência a era disco. Chuto que este seja o desencontro de uma novata com fatos históricos, mas é impossível não enxergar "So Desu Ne" como uma homenagem a 'Kimono My House' (1974), álbum que consagrou o Sparks com o single "This Town Ain't Big Enough For Both Us".

Já a "Little Guy From Suburbs" distoa de todo o álbum, sendo a única com uma melancolia explícita - quem se lembrou de "Where the Wild Roses Grow", fruto da parceria entre Nick Cave & The Bad Seeds e Kylie Minogue, levante a mão.



A faixa "Piss Off" é uma das mais interessantes em todo o álbum. Eu a ouvi em um momento de grande alegria - e céus, para infortúnio do meu tímido sex appeal, foi impossível não imitar a coreografia da animação feita para o videoclipe - e de uma desesperança angustiante.

O diálogo que estabeleci com a canção em ambos os momentos foi reconfortante. Os versos "tell everybody to piss off tonight/ well, they should piss off and leave you alone in your world tonight" são praticamente um convite a sair chutando bundas por aí e eu não desperdiçaria uma oportunidade destas tão cedo.

"Look At Me" também possui esta aura divertida, e com batidas repetitivas, o ápice da canção rapidamente me lembrou do hit "Take me Out". Este é um convite para uma coreografia desengonçada, meninos.



As mudanças repentinas na sonoridade de uma mesma faixa são algumas das características do Sparks que melhor percebi no primeiro disco do FFS. Os backing vocals eletrônicos do duo americano também estão bastante presentes, embora os vocais de Alex Kapranos sejam soberanos em todo o álbum. Felizmente, os elementos eruditos dos últimos trabalhos do Sparks não foram trazidos para o FFS, ou teríamos uma grande bagunça beethoviana.

Por aqui, evitamos usar o termo "super grupo" porque, neste caso, todos os membros das duas bandas estão envolvidos no projeto. O álbum foi gravado no RAK Studios, em Londres, durante três semanas, em um processo descrito pelos integrantes do projeto como incrivelmente fácil. O que só torna "Collaborations Don't Work" uma grande piada para uma parceria que só perde lugar para Chitãozinho e Xororó ou para a goiabada com queijo.

Que seja. FFS é projeto bastante inventivo e uma ótima tentativa de sacudir um cenário pop sobrecarregado de fórmulas rotas, tarefa que não se cumpre com efemeridades. Vida longa ao FFS.

Ouça: "Johnny Delusional", "Piss Off" e "Police Encounters".

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